O universo paralelo dentro de nós

Posted in thoughts on Fevereiro 7, 2011 by Sergio Freire

O céu parece tão grande quando o olhamos cá de baixo. Não vemos o seu fim, por vezes esconde-se por detrás das nuvens, noutras esconde-se atrás do horizonte. Parece que nos toca e nos envolve mas não o sentimos.

Abrimos os olhos, atiramos água para a cara, focamos e aproximamos mas não conseguimos ver mais daquilo que somos efectivamente.

Sussurram-nos da existência de mundos paralelos, diagonais ou mesmo ortogonais. Se existem são contraditórios. Se existem sobrepõem-se.

Somos parte dum Universo mas nós próprios somos vários universos. Viajamos entre eles a uma velocidade bem superior à da luz. Amarramos as cordas que os seguram mas por vezes somos arrastados por elas.

Temos tudo nas nossas mãos.

Se somos tanto, então porque não conseguimos olhar dentro de nós próprios?

A maior conquista do Homem não está nos céus ou para além deles.

A maior conquista do Homem está em solucionar a equação que é ele próprio.

“O baú” – olhando pelos lados dum prisma

Posted in thoughts on Outubro 24, 2010 by Sergio Freire

Um raio de luz transporta energia.

Um raio de luz transporta um ponto duma imagem, ou melhor, dum ponto ao longo duma série de imagens que descrevem tudo aquilo que é passado.

Quando olhamos vemos aquilo que nos cega e não o que está do outro lado.

Recebemos e processamos, filtramos e acabamos por ver o que inicialmente já estávamos à espera de ver.

Uma mesma realidade, um mesmo passado, um mesmo presente, tudo pode ser olhado como quisermos, não visto.

Olhamos dum ângulo, espreitamos e surge algo.

Inclinamo-nos e vê-mos algo diferente, pois o ângulo com que o raio incide neste vidro que nos separa da realidade é também ele distinto. A realidade permanece inalterável mas pode ser substancialmente diferente quando a olhamos.

A luz abandona a estrela, bate, reflecte e perde-se no entretanto.

Mas o que revelamos de nós próprios?

“O baú” – porque o temos?

Posted in thoughts with tags on Outubro 2, 2010 by Sergio Freire

Todos temos um baú.

Guardamo-lo a sete chaves e por vezes livramo-nos delas para nos esquecermos dele.

Há quem precise duma caixa, há quem precise dum contentor, mas todos gostamos de guardar e por vezes arquivar bocados da nossa vida.

Uma folha encontrada no chão pode encerrar uma história de quem a encontrou. Pode também ser o começo duma nova história. Pode apenas ser parte duma história muito maior, duma árvore com muitos ramos onde esta folha fez o seu destino.

Uma pedra, uma simples pedra fria e cinzenta, redonda ou laminada… uma pedra, objecto que parece nada ser. Mas uma pedra pode ter sido o banco de mil histórias e de outros tantos sussurros. Uma pedra, fria e muda que pode guardar para sempre em segredo quem ao seu colo partilhou os sonhos e as desilusões. Uma pedra, que pode ferir mas que pode também amparar os males pantanosos.

Um bocado de metal, redondo por sinal. Nada mais que um condutor rígido mas que esculpido transmite algo que em bruto não consegue dizer. Estranha forma de falar é esta que precisa da metamorfose como meio de revelar o que sente a alguém. No entanto, tanto diz ou tanto lembra. Pode valer pelos seus contornos mas o seu verdadeiro valor esconde-se no tempo de quem o encontrou.

Tudo pode ser guardado no baú. Tudo.

Guardamo-lo num local tão fundo e tão nosso, que chegar a ele encerra enormes perigos.

Isto porque esquecemo-nos do que lá encarcerámos, de tudo o que não fomos capazes de atirar para a lareira e atear fogo numa qualquer noite mais fria. Mas sobre isto mais teremos de reflectir.

Mas… porque o temos?

Experimentem pegar no tempo e atear fogo ao mesmo, verão o quanto arde na nossa cara.

Experimentem colar folhas partidas numa árvore num dia de chuva, verão o trabalho que dará.

Experimentem admitir que o céu afinal não tem cor, quando acordam e o vêem azul a olhar para vós.

Embrulhar parte do tempo, comprimi-lo e metê-lo num baú é bem simples.

Há tanto espaço para esconder as folhas partidas debaixo do seu forro.

Tirar e guardar a aguarela azul da paleta de cores, num cantinho do baú… há lá tanto espaço.

O baú é tudo aquilo que não admitimos mas que faz parte de nós.

Ele molda quem o guarda, consoante o que guarda.

O problema é quando ele se torna tão grande que consome o seu dono…

SF

“O baú”

Posted in thoughts on Setembro 27, 2010 by Sergio Freire

Ao longo da vida vamos arrecadando tantas coisas.

Vamos guardando o inimaginável.

“O baú” pode ser bem o nome do meu primeiro filme, a realizar em 2011.

A história?! Isso agora…

Quando não te conheces a ti próprio ainda não tens razão para ter medo.

“When you don’t know yourself, there’s no reason to be afraid.”

SF

Pressinto que sinto

Posted in thoughts on Setembro 8, 2010 by Sergio Freire
Gosto muito de ouvir.
Ouvir em última análise faz-nos pensar, em nós próprios inclusive.
Hoje ouvi e isso fez-me pensar.
Sinto que puderia ser quem não sou.
Sinto que puderia estar onde não estou.
Sinto-me uma incógnita, mas isso até é capaz de ser bom.
Sinto que não me ouvem, porque não me vêem.
Sinto que quem deveria não acredita.
O problema é definitivamente sentir.
Mas talvez hoje seja apenas um mau dia.
SF

O encanto dos pirilampos

Posted in thoughts on Agosto 5, 2010 by Sergio Freire
Está frio mas é Verão.
Sopra um vento sem direcção, enquanto olho para aqueles pirilampos lá em cima.
É de noite, mesmo de noite, de tal forma que se conseguem ver os seus olhos brilhantes.
Caminho mesmo juntinho à espuma salgada, quase sentindo o seu sabor.
Uma cova escavada na encosta da areia separa o deserto árido das águas que se banham sobre ela.
Paro e reparo que as águas correm umas sobre as outras, argumentando e contra-argumentando, engolindo-se a si próprias.
Mas cedo renascem e também cedo desvanecem.
Uma força enorme as atira constantemente.
Uma força enorme as recolhe.
Os pirilampos admirados lá bem alto, piscam os olhos uns aos outros.
De vez em quando deixam cair uma lágrima brilhante, a que chamam "estrela cadente".
Tanta vontade têm de sentir esta brisa que se atiram do espaço mas quando se aproximam o seu brilho desaparece, engolido pela audácia de quem tudo quer.
São tantos que não sentem a falta uns dos outros, quando um deles se perde pelo encanto da onda do mar que o ofuscou.
Está frio.
Estou hipnotizado pelo som das ondas que falam sempre em línguas diferentes. Quando começo a ser capaz de distinguir dois ou três fonemas e me atrevo a dizer três ou quatro palavras, vem uma onda que abafa a primeira, fala num dialecto diferente e deixa-me novamente sem palavras. 
Afasto-me pois entretanto o mar subiu e quase que engolia a encosta que me sustentava.
Está na hora de voltar costas, não ao mar, não ao espaço que tem aqueles estranhos seres que anseiam estar a 2 metros das ondas cada uma diferente.
Mas está na hora de voltar costas, porque amanhã sei que se aqui voltar o mar ali estará para me surpreender e me encantar… da mesma forma que seduz os pirilampos lá nos confins do espaço, os tenta e os engana, pois enquanto eles se atiram para falar com aquela onda que viram nascer… ela cresceu, diminuiu e desapareceu.
SF

Perguntas do alto das nuvens

Posted in thoughts on Agosto 3, 2010 by Sergio Freire
Não quero falar. Não posso.
Se falar, digo o que não quero, ou o que quero mas mas não devo.
Caminho silenciosamente pelas nuvens que me envolvem e me escondem. Mas grandes são os buracos lá em cima que de repente se destapam e deixam ver o céu cá em baixo.
Mantém-se uma neblina que distorce a realidade e não nos deixa ver tudo aquilo que existe para além das gotas que ampliam e reduzem o que as circunda.
Aproximo-me duma gota e ela amplia-e a mim próprio, escorrendo pelo meu corpo como chuva, que molha e não seca.
Não sei porque me molha mas talvez seja da minha teimosia em lhe perguntar. A forma como brilha cria um mundo que não existe.
Apetece-me espreitar para além dela mas atrás uma irmã espreita, e da irmã uma prima. 
Não consigo ver o caminho adiante, pois tão grande é a família. Posso perguntar a uma delas porque se atravessa no meu caminho mas as outras curiosas aproximam-se, juntam-se numa só e não me deixam passar.
Continuo sem ver o céu lá em baixo. Espreito agora que a tempestade parece ter passado e o Sol começa a piscar o olho com ar matreiro. Mas tenho medo de lhe perguntar porque me faz aquele sinal. Se lhe pergunto pode levar a mal. Se lhe pergunto posso despertar a atenção novamente às suas vizinhas, que cedo acorrem por curiosidade, se juntam tão juntas para cuscar, transformando-se na neblina que não me deixava ver o que mais queria.
Encontrei uma escada.
Desço por ali abaixo.
Pensava que havia apenas um andar de nuvens mas parece que o construtor sabia que cada uma deveria viver em andares separados.
Há correntes que movem as nuvens mais depressa ou com mais acalmia, independentemente do andar que habitam.
Mas cá para baixo as tempestades são sempre menores, ou pelo menos os raios estão mais afastados.
Desço.
A escada estica e cresce.
Olho para o retrovisor e leio o aviso: "Os objectos estão mais perto daquilo que parecem". E nessa altura apercebo-me.
Quando penso que estou a chegar mais perto do céu lá em baixo, parece que estou mais longe.
Apetecia-me perguntar quantos degraus faltam mas tenho medo que a escada cresça para me explicar.
Se não pergunto fico na dúvida.
Se perguntar tenho receio.
Mas todas as perguntas têm resposta desde que estejamos preparados para a ouvir.
Perguntei e apercebi-me que…
já sabia a resposta… só não sabia fazer a pergunta.
Mas o céu ficou um pouco mais claro, mesmo que chova, pelo menos esta chuva molhará certamente doutra forma. Talvez até seque mais rapidamente, se o vento soprar com força.
Sinto a brisa levar-me para uma estrada. Mas não vejo indicações… mas será que as quero?
Talvez me deixe repousar na manta do vento e deixar que ela me aconchegue.
Talvez ela me deixe cair devagar e ao céu chegar sem me ferir, sem me magoar.
Se pergunto ao vento se demora, ele chateia-se e vira-me ao contrário.
Largo a escada, confio no vento, mesmo que me leve onde não queira mesmo que me leve para as nuvens.
Nisto lembro-me daquelas gotas bisbilhoteiras e chove novamente.
Deixo-me molhar mas mantenho a boca de fora, pois o nariz está entupido e não consegue cheirar o rasto que me leva ao caminho que me conduzia.
Estou tão perdido que começo a acreditar que por sorte encontrarei o Sol à minha espera no céu lá em baixo.
SF
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